Ser palestino não é fácil.

março 31, 2011

O vídeo “ser palestino não é fácil”, produzido pelo site Israel na Web merece ser questionado em seu objetivo de prestar apoio ao povo de Israel. Ora, um vídeo que aglomera e divulga dados indiscriminadamente, descontextualizando os resultados de uma pesquisa;  esvazia de qualquer sentido a autoridade das suas próprias fontes de informação.

Esse tipo de apoio Israel dispensa. Porque Israel não se faz presente no delírio salvacionista da Diáspora. Israel é um país que vive : ora pulsa virtudes, ora  luta contra os próprios defeitos. E, se para os vivos, o apoio é aquilo que funda, empresta base e protege; espera-se que o apoio revele qualquer verdade.

O contrário do apoio é a propaganda.

A propaganda brinca com uma ilusão de verdade.  Ela mente por omissão. O objetivo principal da propaganda é a conquista. O objetivo máximo da verdade é a liberdade.

Ser palestino não é fácil.

Também não é fácil ser judeu. Mas, neste mesmo espaço e nesta mesma angústia estão inseridas tantas minorias quantos homens existem: negros, homossexuais, mulheres, índios, filósofos ou escafandristas. A questão não está na dificuldade em ser ou isto ou aquilo.  A questão é ser e para ela ainda não foi encontrada qualquer resposta.


Direitos iguais para as mulheres?

julho 5, 2010

No dia 01 de julho de 2010, o International Herald Tribune fez circular um artigo da série The Female Factor: ‘Equal rights for women? Survey finds: Yes, but…’ Resolvi traduzir o material para que o assunto possa ser objeto de debate entre as minhas leitoras de língua portuguesa.

Quem tiver interesse de encontrar o artigo original, clique aqui.

Direitos Iguais para as mulheres? A pesquisa indica: Sim, mas…

por Victoria Shannon, Nova Iorque.

traduzido por Juliana de Albuquerque K., Blog Dos Espíritos.

Entre os meses de Abril e Maio de 2010 foi realizada uma pesquisa em 22 países sobre o problema da igualdade de direitos entre homens e mulheres. De resultados bastante surpreendentes, a pesquisa demonstra que continua a existir uma lacuna entre a crença da igualdade entre os sexos e a sua aplicação na realidade tanto em países ricos quanto em países em desenvolvimento.

Mesmo nos países onde a igualdade dos sexos é mandatória as mulheres permanecem reféns de falta de um progresso real sobre a temática. “Mulheres nos Estados Unidos e na Europa estão abraçando grandes responsabilidades em casa e no trabalho de maneira simultânea e isso acarreta em stress e baixa qualidade de vida”, afirma a Profª Herminia Ibarra, co-autora do Corporate Gender Gap Report de 2010 para o Fórum de Economia Mundial.

Particularmente, as opiniões francesas são emblemáticas da assimetria do desejo pela igualdade entre os sexos.

Cem por cento das francesas e 99% dos franceses apóiam a idéia da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Mesmo assim, 75% afirmam que os homens franceses levam uma vida melhor do que as mulheres.   De longe a maior percentagem em todos os países que participaram da pesquisa.

Por que as pessoas, num país como a França, que fornece um cuidado generoso para as mães e os seus bebês, ainda se sentem longe de terem alcançado a igualdade entre os sexos?

Segundo a Profª Ibarra, que ensina comportamento organizacional na Escola Internacional de Economia (Fontainbleu, França), esse sentimento se presente porque os franceses ainda estão longe de alcançar a igualdade entre os sexos no referente à participação econômica. “Ainda existem poucas mulheres liderando grandes organizações e, a cultura dos negócios permanece resolutamente um clube do Bolinha”.

De fato, os Estados Unidos e a Alemanha reportaram a existência de um forte hiato entre os sexos sobre o fato de ter se feito o suficiente para garantir igualdade de direitos às mulheres.  Entre os que acreditam na igualdade de direitos, muitos homens americanos e alemães acreditam que os seus países proporcionaram a quantidade de mudanças necessárias para as mulheres; enquanto que, muitas mulheres acreditam que tanto os Estados Unidos quanto a Alemanha ainda têm muito que fazer para garantir a igualdade de direitos entre os sexos.

A metade, ou até mesmo mais do que a metade, dos entrevistados na Índia, no Paquistão, na Jordânia e no Egito afirmam que a educação superior é mais importante para os homens.

As potências emergentes, China e índia, juntamente com a Indonésia e a Jordânia, figuram entre os países onde a maioria dos partidários pela igualdade de direitos entre homens e mulheres acredita que a maior parte dos ajustes necessários para o estabelecimento da igualdade já foi feita.

Através de ligações e de entrevistas ao vivo, o Pew Center constatou que a igualdade entre homens e mulheres é um gol a ser atingido por uma grande maioria dos integrantes de ambos os sexos.

Em 13 países, mais de 90% dos participantes da pesquisa afirmaram apoiar a igualdade de direitos entre os sexos. Na maioria dos países, com exceção do Egito, da Jordânia, do Kenya, da Indonésia e da Nigéria, mais de 75% dos participantes apóiam a igualdade entre os sexos. Em verdade, a Nigéria foi o único país onde mais da metade dos entrevistados (54%) afirmaram que as mulheres não deveriam ter direitos iguais; enquanto outros tantos participantes (45%) disseram apoiar direitos iguais.

Em adição, apenas no Paquistão, no Egito e na Jordânia, menos de 80% dos entrevistados disse que as mulheres não são capazes (ou não devem) trabalhar fora de casa. Entretanto, mesmo nesses três países, os entrevistados afirmaram apoiar o direito das mulheres ao trabalho.

Demonstrando como a noção de igualdade entre os sexos tem sido amplamente aceita, muito mais homens do que mulheres na Grã-Bretanha e no Japão apóiam a igualdade de direitos. (Os países escandinavos, campeões no placar da igualdade entre os sexos, não participaram da pesquisa).

Mesmo assim, poucos países acreditam que tal igualdade foi atingida. Apenas em três países a maioria dos entrevistados disse que homens e mulheres atingiram uma qualidade comparável de vida: o México (56%), a Indonésia (55%) e a Rússia (52%). Em seis outros países, uma parcela razoável (entre 40% e 50% dos participantes) afirmou acreditar que a vida de homens e mulheres era igualmente boa.

Em contraste, na Polônia, a maioria (55%) afirmou que os homens mantinham uma posição vantajosa. E, em outros cinco países tão diversos como a Índia, a Espanha e a Nigéria, entre 40% e 55% dos entrevistados afirmaram que os homens retinham uma melhor qualidade de vida. A França lidera o último grupo de entrevistados com 75%.

Apenas na Coréia do Sul (49%) e no Japão (47%) as pessoas disseram que as mulheres vivem em melhores condições que os homens ou que elas atingiram o mesmo padrão de vida que os últimos.

De acordo com a pesquisa, a discrepância de opiniões sobre a igualdade dentre os sexos sugere que enquanto sentimentos igualitários são universalizados, eles são pouco robustos.

A maioria dos países onde as pessoas afirmaram que homens e mulheres levavam vidas igualmente boas está apenas começando a se questionar e a desafiar a descriminação de gênero e a injustiça que foi  antes tida por legítima.

“Existe pouca conscientização sobre as diferenças de gênero porque os homens sempre dominaram” explica a Profª True, autora de cinco livros de relações internacionais e política de gênero, “as mulheres não tiveram a oportunidade de se unir para desafiar o poder dos homens.”

A pesquisa foi conduzida em todo território nacional dos países participantes, menos na China, na índia e no Paquistão, onde as amostras foram urbanas em sua maioria. Sendo a margem de erro da pesquisa entre 3% a 5%.

Apesar da pressão dos governos em garantir igualdade de acesso a educação e ao mercado de trabalho para homens e mulheres, alguns países que apóiam a igualdade entre os sexos ainda possuem grandes circunscrições que não concederiam as mulheres os mesmos direitos iguais referentes a educação e ao acesso ao trabalho.

A metade, ou até mesmo mais do que a metade, dos entrevistados na Índia, no Paquistão, na Jordânia e no Egito afirmam que a educação superior é mais importante para os homens. Na China, no Japão, na Polônia e na Nigéria, este número representou pelo menos um terço dos entrevistados.

Em alguns lugares onde a educação de um garoto é privilegiada, as mulheres defenderam opiniões muito diferentes daquelas defendidas pelos homens. No Egito, por exemplo, 60% dos homens afirmaram que os garotos tinham maior direito de cursar o ensino superior. Enquanto isso, 60% discordavam da opinião. Uma lacuna entre gêneros similar a encontrada na Jordânia e no Paquistão.

“Muitas famílias são muito pobres para enviar todos os filhos para a escola” a Profª Ibarra afirmou. Na Índia, por exemplo, grupos sociais estão tentando proporcionar um sistema de ‘creche’ para as famílias, pois, dessa maneira, as filhas não precisaram permanecer em casa para cuidar dos irmãos mais novos enquanto os filhos saem para assistir aulas.

A Profª True explicou que freqüentemente se passavam duas gerações para que a realidade se adaptasse as mudanças de atitude. “Estamos entrando numa nova fase em muitos desses países. Vamos ver muito mais frustrações em relação a desigualdade entre gêneros, entre homens e mulheres, antes de termos uma mudança institucional em países em desenvolvimento”.


Os problemas da Academia em Israel.

julho 3, 2010

Apenas para complementar a discussão iniciada no post sobre a liberdade acadêmica em Israel. Acredito que o artigo abaixo seja bastante importante para compreender a atual e preocupante situação da academia israelense face ao caos político do Oriente Médio.

Resta a pergunta: o que fazer diante da crise retratada por Moshe Shoked?

Artigo extraido do HAARETZ de quarta-feira, 30 de junho de 2010.

‘Why Israeli Academia will be boycotted?’

By Moshe Shoked,

Professor Emeritus of Anthropology at Tel Aviv University.

Education Minister Sa’ar’s recent initiatives are a sign of the Israeli government’s increasing self-seclusion inside a bunker of delusions, as it distances itself from considerations guided by historical, political and social wisdom. His recent statements befit benighted regimes that have lost connection to the world, like Iran and other totalitarian states.

In the past two years I have been invited to take part in many conferences hosted by the American Anthropological Association. The topic of discussion at these forums has been the Israeli-Palestinian conflict. I agreed to take on a thankless task not as a spokesman for Israel’s education ministers or as a mouthpiece of the right or left. I appeared before an academic audience not noted for its sympathetic views on Israeli policy. This group is more inclined to support the Palestinians, albeit with the belief that neither side holds a monopoly on truth and justice.

I tried to place this awful conflict in the context of two truths, with two claims that contradict each other in terms of historical facts and painful memories, between two national movements that have lost all sense of proportion while striving for a settlement that does not provide either side with complete justice.

Alas, I have no plans to accept similar invitations in the future. In the past year, I have lost the conviction that I can truthfully speak for the current Israeli government’s suicidal behavior. The recent statements by Education Minister Gideon Sa’ar, who vowed to deal with university lecturers and professors who condemn Israel and support a boycott of Israeli universities, reflect the deep abyss the current government has led us down.

I tend to believe that it is only a matter of time before this country’s academic institutions are boycotted, regardless of the wishes of the education minister and other champions of Israeli patriotism. They will be boycotted not because of the handful of Israeli professors who have unabashedly supported such a step, but because Israel is under a global microscope that perhaps unfairly discriminates against it compared with other countries that act unjustly, even violently, toward their minorities and neighbors.

For better or worse, Israel does not enjoy the same luxury as countries like Russia and China, which do not rely on the support of Europe and the United States. Indeed, a look through this microscope reveals the foolishness of Israel’s weak-kneed leadership.

The education minister’s remarks are a sign of the Israeli government’s increasing self-seclusion inside a bunker of delusions, as it distances itself from considerations guided by historical, political and social wisdom. His statements befit benighted regimes that have lost connection to the world, like Iran and other totalitarian states. Israeli academia is losing its international standing on its own account. The brightest students, the hopes of a young generation in academia, prefer to stay abroad.

As early as the 1980s, when I researched yordim – Israeli emigrants – in the United States, I concluded that the overwhelming majority of them will not return. The book in which I included my findings was not translated into Hebrew because at the time it contradicted the dominant ideology. Sa’ar and the rest of this bizarre government of ours would prefer to hunker down and cling to the belief that the entire world is against us and we are in the right.

We have become numb to these eye-popping facts: Operation Cast Lead did not bring back Gilad Shalit, nor did it topple the Hamas government. Instead, it sowed destruction in Gaza and undercut our global standing. Our pathetic cries against the Goldstone report did not help, either. The takeover of the pathetic flotilla once again lined up the world against us. Ultimately we opened the Gaza border crossings.

More than anything, Sa’ar’s recent initiatives will help worsen the brain drain and the university boycott that awaits us. The despair that a vital sector of Israeli society, including academia, finds itself in needs to get the education minister to consider a renewed way of thinking that does not rely on a mob like that represented by right-wing Zionist movement Im Tirtzu. This brings to mind the moving call by late Labor MK Yizhak Ben-Aharon, who urged for “courage to make gains before calamity strikes.” There is no need to silence “treacherous” professors, for the calamity has already struck.


Entre Leibniz e Hegel.

junho 28, 2010

Apresentarei o trabalho “Entre Leibniz e Hegel” no II Colóquio Internacional Comemorativo do III centenário de Publicação da Teodicéia, na Universidade de Lisboa, entre os dias 25 e 27 de Novembro de 2010.

Entre Leibniz e Hegel

Juliana de Albuquerque Katz,

Universidade de Tel Aviv.

Para Stanley Cavell, a filosofia deve ser encarada como uma série de textos cuja leitura desafia o nosso auto-entendimento. Assim, a excelência de um texto filosófico não deveria ser medida pela sua extensão ou pela sua capacidade de trazer à tona a solução para os seus próprios problemas filosóficos. Na verdade, a excelência de um trabalho filosófico esta relacionada com a qualidade dos demais trabalhos para os quais ira proporcionar inspiração.

Também Hegel aponta para o fato de que a Filosofia e a sua Historia devem ser entendidas como um desenvolvimento dialético contínuo dos diversos níveis da Idéia. Assim, em conformidade com os conselhos de Hegel e Cavell, ofereço uma visão da influencia de Leibniz no Idealismo Alemão. Mais precisamente, na filosofia de G.W.F. Hegel.

Um dos aspectos-chave da leitura de Leibniz desenvolvida por Hegel foi a ruptura com a escola de Christian Wolff e com a sua interpretação dogmática da do filosofo de Hanover. Tal ruptura foi apenas possível porque Hegel teve contato com as edicoes Dutens e Raspe da Opera Omnima Leibniziana. Favorecendo o seu acesso a um vasto material que incluía obras como a Monadologia e a Teodicéia. O que lhe permitiu fazer uma leitura mais acurada da obra de Leibniz e, talvez, tenha antecipado a reinterpretação do racionalismo Leibniziano.

As intenções da interpretação Hegeliana de Leibniz se tornam claras quando Hegel menciona o principio da razão suficiente na Enciclopédia das Ciências Filosóficas: “dentro em pouco se produzirá diante de nós o conceito – como tal conteúdo determinado em si e para si e por isso auto-ativo-; e é do conceito que se trata em Leibniz, quando se fala do fundamento suficiente, e insiste que se considerem as coisas sob esse ponto de vista. (…) De fato faz-se grande injustiça a Leibniz quando se acredita que ele se contentava com uma coisa tão pobre como essa lei-do-pensar formal, (…)”. Afinal, para Hegel, Leibniz teria trabalhado rumo a fundação de uma Filosofia Especulativa contra a moda mecanicista instituída pelo pensamento de Descartes.

Dizer que tal Filosofia Especulativa tem as suas raízes no pensamento de Leibniz e o mesmo que afirmar que entre Hegel e Leibniz existe similaridades que ainda não receberam o devido tratamento pela literatura secundaria. Pois, não existe um afastamento extremo entre os dois filósofos. Assim, sendo possível afirmar que “Hegel is much nearer to Leibniz in his outlook on the universe than is commonly supposed. Like Leibniz he conceives the world as an organic unity of spiritual beings, each of which ideates the whole universe from its own point of view.”

Existe uma grande similaridade entre o Absoluto Hegeliano e o conceito Leibniziano de Universo. E, para que isso seja provado, o presente trabalho irá analisar trechos de algumas obras de Leibniz, e.g., a Teodicéia e a Monadologia, que claramente influenciaram algumas reflexões Hegelianas.

Para Leibniz, o Universo é composto de um número infinito de substâncias individuais, sem qualquer poder de causação umas sobre as outras. Pois, tal poder seria ideal, isto é, mediado por Deus. Novamente, de acordo com Hegel, “Leibniz’s philosophy is a metaphysics and in sharp contrast to the simple universal Substance of Spinoza, where all hat is determined is merely transitory, it makes fundamental the absolute multiplicity of individual substances, which after the example of the ancients he named monads – (…)”

É o conceito da harmonia pré-estabelecida que traça conexões mais profundas entre os dois filósofos. De acordo com a harmonia pré-estabelecida, cada substância apenas afeta a si mesma. Mas, de qualquer maneira, as substâncias individuais interagem entre si, devido ao fato de Deus haver pré-estabelecido que elas devam se harmonizar umas com as outras. Assim, a monada passa a interagir com o mundo, funcionando tal um espelho.

Essa iteração também ocorre na filosofia Hegeliana e é reconhecida por muitos como a gênese do problema da intersubjetividade. Mas, o que falta aos estudiosos de Hegel é a visão da Filosofia como o desenvolvimento contínuo da Idéia. De maneira que, se possa dizer que tal intersubjetividade já estaria presente nos trabalhos de Leibniz, apenas aguardando ser desvelada por um sistema capaz de reconhecer a sua grandiosidade.


Uma pequena História do Mundo.

junho 10, 2010

Gombrich escreveu Uma pequena história do mundo enquanto trabalhava na sua tese de doutorado. O livro foi originalmente escrito em alemão e, publicado em 1936, em Viena.

Na época, o autor passava por dificuldades financeiras, e recebeu uma proposta para escrever um livro de história para crianças, através de um projeto editorial chamado Wissenschaften für Kinden.

Uma pequena História não tem a pretenção de substituir os livros didáticos. Mas, é uma leitura obrigatória para todos aqueles que pretendem educar as suas crianças através de fortes valores humanísticos: uma necessidade para os tempos atuais.


Prêmio Dardos.

junho 10, 2010

Quero agradecer ao blog Sexismo e Misoginia pelo prêmio que recebi ontem. O Dardos é entregue em reconhecimento dos valores culturais, éticos, literários e pessoais que são transmitidos nos blogs.

A idéia do Dardos é muito interessante. Mesmo porque, aquele que recebe o prêmio deve indicar outros 15 blogs para a premiação, além de citar o blog que lhe concedeu o prêmio, o que ajuda na divulgação do trabalho dos colegas no espaço virtual.

Eis a minha lista de indicados ao Dardos (apenas 6):

Analytical

Deposit

D’ Oliveira

I  wish I could reach you in Belgrade

Neurose Freudiana

Philosopher’s Desk

Obrigada,

Juliana de A. K.


O Dilema do Prisioneiro.

junho 8, 2010

O dilema do prisioneiro (DP) dito clássico funciona da seguinte forma:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?

O fato é que pode haver dois vencedores no jogo, sendo esta última solução a melhor para ambos, quando analisada em conjunto. Entretanto, os jogadores confrontam-se com alguns problemas: Confiam no cúmplice e permanecem negando o crime, mesmo correndo o risco de serem colocados numa situação ainda pior, ou confessam e esperam ser libertados, apesar de que, se ele fizer o mesmo, ambos ficarão numa situação pior do que se permanecessem calados?

Um experimento baseado no simples dilema encontrou que cerca de 40% de participantes cooperaram (i.e., ficaram em silêncio).

Em abstracto, não importa os valores das penas, mas o cálculo das vantagens de uma decisão cujas conseqüências estão atreladas às decisões de outros agentes, onde a confiança e traição fazem parte da estratégia em jogo.

Casos como este são recorrentes na economia, na biologia e na estratégia. O estudo das táticas mais vantajosas num cenário onde esse dilema se repita é um dos temas da teoria dos jogos. Fonte: Wikipédia.

Faz dois dias encontrei um quadrinho bastante interessante que trata da relação do Dilema do Prisioneiro com os problemas Morais.

Isso aconteceu durante a ressaca do noticiário sobre o problema da Flotilla. E, me fez pensar um pouco sobre que outras possibilidades de ação poderiam ter existido tanto para os manifestantes quanto para a Marinha Israelense, na busca de um resultado vantajoso para ambos.

Como o problema a me rendeu uma boa dose diversão e reflexão desinteressada, prometo escrever qualquer coisa sobre o assunto daqui para o final do mês. No momento, deixo vocês com o quadrinho explicativo do dilema para que se possa iniciar uma discussão.

Fonte: Saturday Morning Breakfast Cereal



Israel, liberdade acadêmica, etc.

junho 6, 2010

Chomsky é judeu. Participou do movimento HaShomer Hatzair durante a juventude. Esteve em Israel na década de 1950 e morou durante algum tempo no kibutz Hazoe’a. No entanto, mês passado, a caminho do West Bank para proferir uma palestra numa Universidade palestina, teve a entrada proíbida no país.

Segundo Chomsky “é difícil pensar num caso similar, no qual a entrada de uma pessoa seja negada porque ele não irá fazer uma palestra em Tel Aviv. Talvez, apenas em regimes Stalinistas (…)”

Não divido as opiniões políticas de Chomsky.  Mas, apesar de tudo, não posso deixar de admirar um pensador que se posiciona diante do mundo em defesa da liberdade de expressão.

Não há no mundo um governo simpático as idéias de Chomsky. Mas, aparentemente, apenas Israel e a antiga Tcheco-Eslováquia tiveram o privilégio de negar a entrada do professor em seus territórios.

Difícil é entender porque tal privilégio não parece incomodar ninguém neste país. Ou, será que não é tão estranho assim para uma democracia ser comparada com um regime totalitário? Mas, se não for estranho é no mínimo triste que tal associação seja possível.

A notícia sobre Chomsky foi matéria dos jornais israelenses em 17 de maio deste ano. E, apenas alguns dias depois, o site de notícias Ynet News divulgou um artigo sobre a liberdade acadêmica em Israel e a necessidade de se rever as condições sobre o status dos professores nas Universidades do país.

Para o autor do artigo, seria uma atitude bem-vinda suspender temporariamente a validade dos títulos acadêmicos de professores engajados em atividades políticas divergentes, até que estes se descomprometessem com as suas associações em fóruns nacionais e internacionais de natureza política.

Afinal, que tipo de instituição “se sentiria obrigada a manter a posse de funcionários imorais, anti-sociais e degenerados, em razão da liberdade acadêmica?” E, continua “a liberdade de expressão é um recurso precioso numa democracia. Mas, deve ser traçada uma linha divisória entre a liberdade acadêmica e a violação de leis ou o favorecimento de atividades subversivas.”

Historicamente, conheço uma série de instituições de ensino superior que permitem a existência de um corpo docente de inspirações políticas divergentes: a Sorbonne, a École Normale Supérieure, Harvard e o MIT; onde, ironicamente, Chomsky dá aulas.

Forçar o silêncio da comunidade acadêmica sempre fez parte da agenda de regimes totalitários. É um absurdo que, num país reconhecido internacionalmente como o único sopro de democracia no Oriente Médio, ainda exista gente capaz de atuar contra o conhecimento.


Sartre: Anarquia e Moral.

maio 22, 2010

"Seria uma moral da esperança, pois a esperança é um valor, uma vez que a realidade da sociedade anarquista não é para amanhã."


ANARCHY AND MORALITY: INTERVIEW WITH JEAN-PAUL SARTRE.
Entrevista concedida a R. FORNET-BETANCOURT, M. CASAÑAS e A. GOMES.
Publicada originalmente na revista espanhola de filosofia Concordia, n.º 1, 1982.
Baixe Aqui: sartremoraleanarquia

O fedor de Heidegger.

maio 11, 2010

Richard Rorty

Universidade de Stanford

(Texto que recebi do meu amigo Sérgio como comentário ao post 2034 deste blog).

As recentes tentativas de rejeitar Heidegger como “filósofo nazista” assemelham-se às tentativas nazistas de rejeitar a teoria da relatividade de Einstein como “física judaica”. Em ambos os casos, pede-se que confrontemos um corpo de pensamento, não a outros corpos de pensamento, mas a algo de mais facilmente acessível — nossas intuições morais. Se você estiver de antemão convencido de que a própria noção de relatividade é fruto da decadência cultural, terá fugido ao esforço de, primeiro, atravessar um sem-número de equações, para só então decidir se os fenômenos físicos podem ser explicados de modo não-relativístico. Se você estiver certo de que as próprias idéias de “experiência autêntica” ou de “nostalgia pela voz do Ser” são inerentemente fascistas, ter-se-á poupado o trabalho de comparar a versão heideggeriana da história da filosofia ocidental às versões de Hegel, Dewey, Popper e Blumenberg, entre outros; isso para não falar das etimologias fantasiosas e dos neologismos idiossincráticos do autor alemão. E, afora tudo isso, você estará livre para deixar de lado os livros daqueles que se deixaram influenciar por Heidegger — Derrida, De Man, Foucault —, incluindo-os sob a rubrica de tralha desacreditada.

O próprio Heidegger era mestre nesse tipo de rejeição apressada. Tal como Nietzsche, que dizia ter um olfato capaz de lhe dizer se um livro era digno de reflexão, Heidegger arrogava-se a capacidade de farejar o “autêntico” e o “primordial”. Heidegger pôs de lado todos os esforços por alcançar mais felicidade humana ou por proporcionar oportunidades iguais para um maior número de pessoas como meros sintomas de “humanismo”, outros tantos signos de nosso “esquecimento do Ser”. De modo que, quando os Nazistas subiram ao poder, Heidegger não se sentiu obrigado a comparar suas propostas com as dos partidos católicos ou social-democratas, a se perguntar qual espécie de futuro a Alemanha poderia esperar do regime nazista, a matutar se não seria melhor continuar a viver dentro dos limites do Tratado de Versalhes, a perceber o dano que a demissão de professores judeus causaria às universidades alemãs. Os nazistas cheiravam-lhe bem; havia algo de autêntico ao seu redor.

Graças ao livro de Hugo Ott, sabemos agora que a busca heideggeriana pela autenticidade andou mesclada a uma boa dose de ambição pessoal. Sabemos também que, quando foi chamado a prestar contas, ele mentiu descaradamente. Mas os juízos políticos equivocados, a ambição e a hipocrisia covarde — e mesmo, creio eu, a profunda antipatia pela democracia — não nos incomodariam tanto, não fosse pelo silêncio de Heidegger face ao destino dos judeus europeus. Muitos dentre nós estamos prontos a desconsiderar a vaidade, a altaneira e os negócios escusos de pensadores e escritores originais (aquele tipo de coisa que recheia livros como Intellectuals, de Paul Johnson) com o fito de perguntar: “Apesar de tudo, o que podemos aprender desses sujeitos? O que eles podem fazer por nós? O que podemos tirar deles?” Esta seria a atitude corrente em torno a Heidegger, não fosse por seu silêncio sobre o Holocausto, por sua recusa em sequer reconhecer sua existência. É como se de repente descobríssemos que certos poemas, originais e fantásticos, foram redigidos por um torturador em seus momentos de folga. Desse momento em diante, haveria um certo mau odor a rondar esses poemas.

Não obstante, creio que deveríamos tampar nossos narizes, separar a vida da obra e adotar face aos livros de Heidegger a mesma atitude que assumimos para com outros autores. Deveríamos confrontá-los, não às nossas intuições morais, mas a outros livros. Não é todo dia que se encontra uma história original da filosofia no Ocidente, tal como não é fácil dar com um livro original sobre os movimentos celestes ou a estrutura da matéria. Uma perspectiva original sobre a nossa tradição filosófica deve tentar explicar porque usamos as palavras tal como o fazemos e, por essa via, porque nos ocorrem as intuições morais que temos. Não podemos nos dar ao luxo de desprezar tentativas dessa natureza. Só deveríamos fazê-lo se tivéssemos por nossos narizes a mesma confiança egomaníaca que Nietzsche e Heidegger nutriam pelos seus. Talvez essa espécie de fé seja condição necessária para a produção de obras de gênio; mas nós, que não o somos e que nos consideramos tolerantes e abertos, faríamos melhor em nos livrarmos dessa fé.

Creio que será mais fácil separar a vida e a obra de um autor na medida em que concebamos o caráter moral — nosso ou alheio — como variável independente do curso dos nossos talentos. Vale aqui recordar uma lição freudiana: o caráter moral de um indivíduo (seu grau de sensibilidade ao sofrimento alheio) é moldado por eventos aleatórios ao longo de sua vida. Com freqüência, e talvez mesmo habitualmente, a sensibilidade varia independentemente dos projetos de autocriação que o indivíduo leva a cabo em sua obra intelectual.

Tentarei esclarecer o que quero dizer por “eventos aleatórios” e “variação independente” por meio do esboço de um mundo possível ligeiramente diferente — um mundo em que Heidegger une-se a Thomas Mann, seu companheiro de anti-igualitarismo, na resistência anti-hitlerista. A fim de visualizar melhor como esse outro mundo possível poderia ter sido real, imagine que, no verão de 1930, Heidegger subitamente se apaixona perdidamente por uma aluna de filosofia, uma moça bonita, vibrante e adorável, de nome Sarah Mandelbaum. Sarah é judia, mas Heidegger, tonto de paixão, mal se apercebe. Em 1932, após um doloroso divórcio de Elfride, sua primeira esposa — processo que lhe custa a amizade do casal Husserl, entre outros —, Heidegger casa-se com Sarah. Em janeiro de 1933, nasce o primeiro filho, Abraham.

Em tom de brincadeira, Heidegger diz a Sarah que o filho não recebeu o nome em homenagem ao patriarca bíblico, mas sim em honra a Abraham à Santa Clara, o único outro filho de Messkirch a se dar bem na vida. Sarah vai à biblioteca examinar os escritos anti-semitas de Abraham à Santa Clara, e a piadinha de Heidegger torna-se pretexto para a primeira briga séria do casal. Pelo final de 1933, Heidegger já não faz piadas do mesmo teor: Sarah faz-lhe ver que os funcionários judeus — inclusive seu sogro — foram demitidos. Heidegger lê artigos a seu próprio respeito no jornal dos estudantes; percebe que seus dias estão contados. Pouco a pouco ele se dá conta de que seu amor por Sarah custou-lhe muito prestígio, e mais cedo ou mais tarde lhe custará o emprego.

Mas ele ainda a ama, e acaba por abandonar suas montanhas natais por causa dela. Em 1935, Heidegger está lecionando em Berna, mas tão-somente como professor visitante. Todas as cátedras de filosofia na Suíça estão ocupadas. É quando chega um convite do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton. Heidegger passa dois anos aperfeiçoando lenta e trabalhosamente seus conhecimentos de inglês, suspirando por uma sala de aula repleta de alunos atentos e devotados. A chance aparece em 1937, quando alguns de seus colegas emigrados conseguem-lhe um emprego permanente na Universidade de Chicago.

É lá que Heidegger conhece Elizabeth Mann Borgese, que por sua vez o apresenta a seu pai. Heidegger acaba por superar sua desconfiança inicial frente ao filho-do-papai hanseático, e Mann supera sua desconfiança inicial face ao filho de roceiro da Floresta Negra. Ambos percebem que compartilham — e ainda com Adorno e Horkheimer — uma visão dos Estados Unidos como reductio ad absurdum das esperanças iluministas, como terra sem cultura. Mas seu desprezo pelos EUA não os impede de enxergar Hitler como ruína da Alemanha e, futuramente, da Europa.. Os empolgantes discursos radiofônicos anti-hitleristas de Heidegger permitem-lhe gratificar sua necessidade de oferecer uma auto-imagem heróica às massas humanas – a mesma necessidade que, noutras circunstâncias, ele poderia ter gratificado por meio de um discurso de posse como reitor.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o casamento de Heidegger está em destroços. Sarah Heidegger é uma social-democrata engajada, adora os EUA e é uma sionista apaixonada. Com o passar dos anos, veio a encarar seu marido como um grande homem, de coração frio e impermeável, um coração que, anos antes, abriu-se para ela mas que permanece fechado a seus anseios sociais. Despreza o egoísta na mesma medida em que admira o filósofo e o polemista anti-nazi. Separam-se em 1947, e ela segue para a Palestina junto com Abraham, que agora conta 14 anos. É ferida na guerra civil mas, após a independência, acaba por se tornar professora de filosofia na universidade de Tel-Aviv.

Heidegger retorna triunfalmente a Freiburg em 1948. Ele ajuda seu velho amigo Gadamer a conseguir um emprego, apesar de seu ácido desprezo pela aquiescência deste quando da investida nazista sobre as universidades alemãs. Casa-se pela terceira vez, agora com uma viúva de guerra, mulher que faz seus amigos lembrarem de Elfride. Quando morre em 1976, sua esposa deposita em seu caixão a Medalha Presidencial da Liberdade, a medalha da ordem Pour le Mérite, e a medalha dourada do Prêmio Nobel de Literatura. Este último fora-lhe concedido um ano depois da publicação da breve mas pungente elegia para Abraham, morto nas Colinas de Golan em 1967.

Que livros Heidegger terá escrito nesse outro mundo possível? Quase exatamente os mesmos que escreveu no mundo real. Conta a mesma história sobre a perda gradual da abertura primordial para o Ser ao longo do caminho que leva de Parmênides a Nietzsche. No outro mundo, entretanto, sua Introdução à Metafísica inclui uma identificação desdenhosa do movimento nacional-socialista ao niilismo inconseqüente da tecnologia moderna, assim como a observação de que Hitler está arrastando a Alemanha para o mesmo nível metafísico da Rússia e dos EUA. Seus seminários sobre Nietzsche são basicamente os mesmos, exceção feita a uma longa digressão sobre o horror de Nietzsche ao anti-semitismo, digressão que, aliás, representa um convergência surpreendente com um escrito contemporâneo e independente de Sartre, o Retrato do Anti-Semita.

Nesse outro mundo, Heidegger escreve quase todos os ensaios que conhecemos, além de interpretações de trechos de Thoreau e Jefferson, redigidos por ocasião de conferências em Harvard e na Universidade da Virgínia, respectivamente. Essas conferências transferem o pathos de suas pastorais ambientadas na Floresta Negra para o Monte Monadnock e a Serra Azul da Virgínia. Em suma: nesse mundo, seus livros são documentos do mesmo esforço que presenciamos no mundo real: o esforço por escapar à tradição filosófica ocidental e assim “cantar uma nova canção”. Esse ímpeto pessoal rumo à pureza e à originalidade, essa tentativa de ver o Ocidente de uma perspectiva nova e radicalmente diversa constituiu o cerne de sua vida. Um ímpeto que não se deixou desviar pelo amor por uma outra pessoa ou pelo engajamento nos acontecimentos políticos do seu tempo.

Em nosso mundo, Heidegger não fez qualquer declaração política depois da guerra. No mundo possível que estou esboçando, ele investiu seu prestígio como anti-nazista na tarefa de tornar respeitável a direita alemã. É adorado por Franz Joseph Strauss, que lhe faz visitas respeitosas em Todtnauberg. Social-democratas como Habermas lamentam que Heidegger se encontre repetidamente no lado errado da política alemã; por vezes, em conversas privadas, dão vazão à suspeita de que, sob circunstâncias ligeiramente diferentes, Heidegger teria sido um nazista dos bons. Mas jamais sonhariam em afirmar publicamente uma coisa assim, ainda mais a respeito do maior pensador europeu do nosso tempo.

Em nosso mundo, Heidegger foi nazista, covardemente hipócrita, e ainda assim o maior pensador europeu do nosso tempo. Naquele outro mundo possível, ele tem a sorte de dar de cara com o tormento dos judeus europeus, o que acabou por despertar seus sentimentos de piedade e vergonha. Nesse mundo, ele teve a sorte de não ter podido tornar-se nazista, livrando-se assim de alguns convites à hipocrisia e à covardia. No mundo real, ele deu as costas aos fatos e acabou por recorrer à negação histérica, que por sua vez acarretou seu silêncio indesculpável. Mas a negação e o silêncio não dizem muito sobre os livros que escreveu — e vice-versa. Em ambos os mundos, o único liame entre suas posições políticas e seus livros está em seu desprezo pela democracia, compartilhado aliás com gente como Eliot, Waugh e Paul Claudel — gente que (tal como previu Auden) acabamos por perdoar em vista dos grandes livros que escreveram. Poderíamos, do mesmo modo, ter perdoado a Heidegger seu desprezo pela democracia, se isso fosse tudo. Mas neste mundo sem Sarah, neste mundo em que Heidegger teve o azar de viver, havia muito mais em jogo. Fonte: Crítica – Revista de Filosofia.


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