Quote!

janeiro 25, 2008

“Como alguns são conservadores de um museu ou de uma sala de medalhas, outros se fazem os conservadores do mundo dado; acentuando os sacrifícios que toda mudança necessariamente implica, eles optam pelo que foi contra o que ainda não é.” Simone de Beauvoir, Por uma Moral da Ambigüidade.

 


Serge Gainsbourg.

janeiro 16, 2008

“You know, I was having lunch with some guys from NBC, so I said, ‘Did you eat yet or what?’ And Tom Christie said, ‘No, JEW?’ Not ‘Did you?’…JEW eat? JEW? You get it? JEW eat?” Woody Allen

 

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Desde que postei “Pensamentos Soltos” sinto vontade de escrever algo sobre a postura engajada que Serge Gainsbourg adotou quando finalmente adquiriu fama nacional no cenário artístico francês. Aliás, essa minha vontade é velha e data da ocasião em que lí pela primeira vez a biografia escrita por Sylvie Simmons. Todavia, no ano passado o tempo e as obrigações com congressos, eventos, publicações, faculdade e trabalho me deixaram sem perspectivas de reabrir o blog e fazer um texto legal.

Bem, foi em setembro que recebi na minha casa a caixinha com o exemplar usado de A Fistful of Gitanes que comprei da Kent Regional Library. Lembro que estava terminando de ler Cartas a Nelson Algren e não pude esperar para devorar os primeiros capítulos da biografia. Afinal, desde 2006 Serge e eu nos tornamos grandes amigos. Tudo culpa de Querétte que me enviou a mp3 de “69 année érotique” fazendo reacender a chama dos anos que passei assistindo Absolutely Fabulous.

Naquela ocasião abandonei Simone de Beauvoir e fui para cama com Serge. Esperava encontrar evidencias que me tornassem mais familiarizada com a ironia cortante e o sarcasmo amargo característicos das suas músicas. Mas, por fim acabei descobrindo histórias muito mais interessantes. Uma delas se refere a vida do pequeno Lucien Ginsburg nos anos da ocupação:

“When France declared war on Germany in the summer of 1939, Lucien did not really notice. He was 11 years old, and the family had left Paris to live in Dinard on the Normandy coas, a resort where Joseph had landed a long residency. For Lulu it was one big summer holiday – not as exciting as wehn his father had a six-month assignment in Algiers and took his wife and children to be with him, perhaps – but Dinard had the bonus of a huge bonfire and fireworks display. Or that’s how the sight of British troops setting fire to the coastal petrol reserves appeared to the boy at the time. But back in Paris by the following summer, things were very different. The Germans had taken the city. Government-sanctioned anti-semitism was officiallu launched. A law was passed requiring all Jews to register. The practical Olia hadn’t wanted to, but Joseph insisted that they were now French – which despite their strong Russian accents and taste for borscht and vodka he considered them to be – they should respect their adoptive country’s laws. There were murmurs among the Jewish community of disappearances. Work – especially in the more visible jobs like journalism, art, theathre – was becoming harder for Jews to get as grafitti appeared across the city accusing them of stealing Frenchmen’s jobs. The Ginsburgs didn’t live in a Jewish community, they didn’t keep a kosher house or go to the synagoge; for a while at least, Joseph must have thought he was immune. Certainly life went on for the family with some semblance of normality. Joseph was still being paid to play piano at the Cabane Cubaine, and was earning enough to encourage his sun’s growing interests in painting by enrolling him in an art school in Montmartre. (…) But while Lulu got better, Paris got worste. In 1942 the government issued the directive that all jews over the age of six had to wear a yellow star – the size of a hand with Juif written on it in black – clearly visible on their outer garments whenever they left the house. “His father would make them iron them so that they would look clean and proper for the French government” said Jane [Birkin]. “Serge would say that wearing the Jewish star was like being the sheriff and that he’d grown up under a good star, yellow.” He might have joked about it later, but in truth it cut the sensitive adolescent to the core. “For me,” he said in an interview more than 30 years later “it is indelible. A young boy wearing the star – it was like you were a bull, branded with a red-hot iron.” It was humiliation, a sign to everyone to see that you were part of a powerless group, officially despised, increasingly vilified in the press and open to physical attack from strangers. “Even at 13, 14 years old, I had already become an outsider, because the though guy wasn’t me”. He fled into a smoky fantasy world of literature and cheap cigarrets (a heavy adolescent P4 havit – the French equivalent to Players n° 6). “By reading the great story tellers, Perrault, Grimm, Anderson, Hoffman” he said “I already escaped”. (…) He remembered that day at the Art Academy – a safe heaven of sanity in all the madness going on around it – when he had sat in a classroom, drawing right next to a German officer. And he spoke with bitternes of the way some of his father’s fellow-musicians had begun to treat him, telling him, “You, you’ve no right to be in this orchestra – you’re a Jew, get lost.” (…)” Serge Gainsbourg – A Fistful of Gitanes by Sylvie Simmons.

Isso me deixou impressionada, principalmente depois que evolui na leitura e constatei o grande desvio (ou redirecionamento) de referencial que S.G. sofreu pelos traumas que carregou daquele tempo. Sem querer fazer menção à neurose de Woody Allen nas primeiras cenas de Annie Hall , e exatamente por não considerar os sentimentos de estrangeirice e isolamento muito saudáveis enquanto nos são impostos por um ato de violência do Outro, fico repetindo constantemente em minha mente a frase de Lévinas que postei na semana passada: precisamos determinar com máxima urgência se não estamos sendo realmente enganados pela moral. Afinal, os valores que supostamente deveriam nos libertar muitas vezes nos transformam em escravos de toda espécie de preconceito.

Inconscientemente esse tipo de questionamento não foi feito pela própria autora da biografia quando ela diz não compreender muito bem o que levou Gainsbourg a presentear o Estado de Israel com uma canção para a Guerra dos Seis Dias (1967). Ora, ela mesma conta no livro que numa entrevista perguntaram ao velho Gainsbarre quais eram as verdadeiras raízes de sua música, para o que ele respondeu dentre outras coisas que não lhe podia escapar a idéia de que era um músico judeu basicamente influenciado pela nostalgia que carregava no próprio sangue.

E mesmo quando compunha reagges ele não se deixava calar diante do fantasma do anti-semitismo. Se pegarmos a letra de Juif et Dieu veremos que além de não deixar de lado a sua marca de grande gozador ele encontra uma forma de impor aos outros a sua própria identidade:

“Et si Dieu était juif ça t’inquièterait petite ?
Sais tu que le nazaréen
n’avait rien d’un aryen
et s’il est fils de Dieu comme vous dites
alors

Dieu est juif
Juif et dieu.”

Estaria louca se fosse jogar o rótulo de artista engajado em Gainsbourg caso mencionasse para isso apenas duas músicas dentro da sua vasta discografia. Assim, deixo a sugestão para os navegantes de escutarem o LP que lançou em 1975 chamado Rock Around the Bunker composto pelas seguintes músicas:

1 – Nazi Rock
2 – Tata Teutonne
3- J’entends des Voix Off
4 – Eva
5 – Smoke get in your eyes
6 – Zig Zig avec Toi
7 – Est-ce est-ce si Bon
8 – Yellow Star
9 – Rock around the Bunker
10 – S.S. in Uruguay

Volto a falar sobre o tema de forma mais específica quando terminar de refletir sobre alguns pontos que Sartre levantou sobre o anti-semitismo em A Questão Judaica.

 

P.S: quem prestar atenção no vídeo de Les Soldats et le Sable vai bater de cara com uma imagem de Moshe Dayan. =P


Pensamentos Soltos.

janeiro 6, 2008

 

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Mesmo que a minha opinião pareça furada hoje irei escrever algumas linhas sobre o grande mal que nos assola: o conservadorismo. Outro dia no Stumble Upon esbarrei num relatório de determinada universidade americana anunciando os resultados de uma pesquisa sobre o que formaria a mente de um conservador. Entre os vários fatores apontados estavam lá o gosto por discursos certos e infalíveis e a exclusão da ambigüidade no seio da realidade social. O que isso quer dizer?

Discursos certos e infalíveis são aqueles que desconsideram a dúvida, ou o argumento negativo apresentando soluções ou idéias bastante claras e lógicamente corretas apesar de falaciosas. Assim, tais discursos apoiados na falência da verdade, mesmo sob o pretexto de atingirem a sociedade como um todo passam a contribuir unicamente com determinado grupo geralmente oposto a qualquer mudança no cenário político, ou simplesmente incapaz de se insurgir contra as estruturas apodrecidas do poder, seja por interesse de perpetuar-se numa situação, seja por total e completa ignorância.

Por isso, o poder do discurso conservador é avassalador. Considerando que tanto a má-fé quando a ignorância dos seus seguidores se alimenta únicamente de preconceitos, não se faz questão de incorporar a diferença, a contradição e a novidade no seu conteúdo. De onde podemos tirar que através dele se opera de forma brutal a exclusão da ambigüidade tão marcante nos fenômenos sociais e imprescidível para reciclagem de antigos valores morais.

Se operarmos uma pequena análise veremos que mesmo vociferando o ideal de “igualdade” o conservador lhe encara como excludente qualquer termo que se lhe opunha formalmente, e não como um princípio de que todos são iguais na medida em que se constituem como diferentes, visto que em verdade toda identidade é identidade da identidade e da diferença. Assim, para o homem burguês, heterossexual, conservador, branco e cristão encontram-se terminantemente marginalizados os judeus, as mulheres, os negros, os gays e os pobres.

Não importa o quão travestida de democrática seja a sua atitude, o conservador jamais será capaz de experenciar o verdadeiro reconhecimento. Sustentando-se apenas como senhor numa situação de submissão do seu outro, e portanto igualmente sua, ele mesmo se transforma em escravo da sua própria contingencialidade. Sendo mesmo impossível considerar na sua figura superior e tolerante qualquer traço de liberdade.

Fico verdadeiramente chocada com algumas opiniões que escuto pelo meio da rua. Ontem um rapaz alegou que todas as mulheres de vida sexual ativa seriam grandes vagabundas. Certo que fez isso de maneira indireta usando qualquer argumento machista, mas todos na mesa caíram na gargalhada.

A história poderia ser realmente ridícula não fosse patética. Acontece que enquanto procurava afirmar o seu ponto de vista bastante lúcido (isso é piada…), abraçava a namorada e lhe cobria de beijos. A menina, por sua vez apenas sorria. E, não parecíamos estar diante de grandes conservadores. Ambos vestiam-se como representantes da sociedade alternativa: piercings, tattoos, all star shoes…

Imagine! Na mesma noite antes de sair de casa estava conversando sobre o caso Heidegger x Hannah Arendt (voltarei a tratar desse assunto em outro tópico) e relembrei a fala de um colega que qualificava todo e qualquer judeu como incapaz de amar. Faz seis meses escutei essa frase pela primeira vez e fiquei completamente sem reação. Tanto mais porque parecia sair da boca de uma pessoa esclarecida e apesar de bastante jovem antenada no meio intelectual.

Esses pensamentos corriam soltos na minha cabeça, e quando atravessei o meu portão novamente às 3:00 da manhã não consegui mais relaxar. Algumas coisas me pertubavam bastante: a persistência do preconceito de gênero, o anti-semitismo (voltarei a esse tema em outro post) e direito que os conservadores nos conferem de não reagir as falsas acusações que nos jogam nos ombros.

Quando indiretamente sou chamada de vagabunda e insensível devo ficar calada. Mas, será que ninguém entende que não é certo permanecer calado por mais enraizado que esse comportamento esteja em nosso meio? A que custo se sustenta a falsa democracia e a tolerância demagógica dos conservadores? Será que deveremos sempre pagar pelos seus caprichos com a nossa liberdade?

Tenho um problema antigo com essa tal coisa chamada liberdade. Da época de escola, onde nossas diferenças começam a ser massacradas por uma certa quantidade de professores medíocres e uma maioria de colegas de turma perfeitamente imbecilizados ao período de Faculdade, quando a história só faz piorar ficamos tão desesperados que passamos a considerar como única saída para todo aquele sofrimento nos tornarmos iguais a todos eles: assimilados e assimiláveis.
Quantas pessoas já não se deixaram enganar por essa aparente solução? Quantas garotas desesperadas pela incompreensão do seu sexo, ou da sua creça pelo próximo, mesmo com inteligência suficiente para discernir entre o verdadeiro e o falso, acharam preferível deixar de viver as suas vidas para encontrar consolo na dependência absoluta do namorado se deixando enganar por um simples gesto de carinho dele e da sociedade, quando por detrás daquilo tudo existia um verdadeiro projeto de dominação? Quantos bailes de 15 anos não marcaram o sepultamento de uma possível mulher, e o nascimento de uma fêmea no sentido mais bestial possível? Sinto muita pena de quem optou por se sentir obrigatoriamente satisfeita com os rótulos de virgem frígida ou grande vagabunda insensível.
E, por isso não fico de mãos atadas diante do conservadorismo. Se podemos conhecer a mente de um conservador temos exatamente os meios necessários para combatê-la e não permanecermos passivos. Não se pode de forma alguma permanecer sem nada dizer ou fazer. É o conservadorismo que busca cercear a nossa liberdade aliado ao alto grau de extremismo em que se encontra mergulhado o mundo. Assim, como aconteceu em outras ocasiões históricas nem tão distantes do nosso presente vivemos um instante em que precisamos (re)aprender a agir – e sobretudo a contestar.

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