“Você é o crivo pelo qual minha anarquia passa e se decompõe em palavras. Atrás da palavra está o caos. Cada palavra é uma tira, um traço, mas não existe, nem nunca existirão, traços suficientes para fazer a trama.” Henry Miller, Trópico de Câncer.
A Contorcionista.
maio 27, 2009
É necessário que todos se convençam do próprio cinismo e proclamem em voz alta a própria imprudência. Assim, advirto cada um de vocês de que não quero mais esperar, perdoar e confiar em falsas expectativas. A vida é breve. “O tempo passa e nos carrega com ele: o momento em que falo já está longe de mim.” O tempo passa e eu me canso. Envelheço e embruteço. Perco o amor depositado em cada sonho. Passo a considerar tudo vão. Ao redor de mim é puro vazio. Ao redor de mim! Ai, quem me dera existisse um contexto. Algo para além dos meus braços e pernas: um horizonte no qual eu pudesse depositar a minha vista. Mas, não existe o horizonte. Diante de mim resto sozinha: não há braços que enlacem as minhas pernas. Existem as minhas pernas que se contorcem e se aninham nos meus próprios braços. O amor é sem importância. E, como pesa a desimportância: ela tem o meu próprio peso. Mas, já não suporto esse peso. Estou de ponta-cabeça: torcida e retorcida. As minhas mãos não se apoiam: simplesmente não se alcançam. Daquilo que me faço pesar ao desequilíbrio basta um passo. Tropeço. Despenco. Lamento sentir a minha cabeça girar entre os meus braços e as minhas pernas. Não existe tragédia no meu sofrimento. A minha queda mostrou-se uma pirueta. E, eu, caricata, metade bicho, metade artista de circo, sou a mentira burlesca para quem a plateia se desmanchou em risos.
A Sonata a Kreutzer.
maio 21, 2009“Na primavera de 1803, o compositor foi convidado a apresentar em Viena uma sonata inédita para piano e violino. Seu acompanhante neste instrumento foi um jovem mulato, George Bridgetower, filhe de mãe polonesa e pai negro, ex-escravo nas Antilhas, que uma vez na Europa tornara-se valete dos Esterházy, família da aristocracia austro-húngara. O afro-polonês revelou-se desde cedo um prodígio ao violino, tendo sua precocidade comparada à de Mozart.
Para o concerto de Viena, Beethoven entregou a parte do violino poucas horas antes da apresentação. Ainda assim o espetáculo foi um sucesso. Dizem os relatos que, a certa altura do primeiro movimento, após uma passagem dificílima para o piano, Bridgetower teria inesperadamente recriado o mesmo trecho ao violino, obtendo a aprovação entusiástica de Beethoven, que se ergueu do teclado, correu até ele para saudá-lo, e voltou a tempo de continuar tocando. A performance foi tão arrebatadora que, em seguida, Beethoven anunciou que dedicaria a obra a Bridgetower – e escreveu na partitura: Sonata per un mulaticco lunattico.
Mais tarde, quando bebiam juntos, o jovem violinista, que, segundo consta, exercia grande atração junto às mulheres, fez um comentário de cunho particular sobre uma dama conhecida de Beethoven. Enfurecido, este pediu de volta a partitura e rasgou a dedicatória, intitulando-a mais tarde Sonata a Kreutzer, em homenagem a Rodolphe Kreutzer, tido então como o maior nome do violino na Europa. George Bridgetower faleceu em 1860, num asilo para indigentes em Londres, inteiramente esquecido pelo mundo musical – e Kreutzer, por sua vez, ao receber a partitura desta que é uma das sonatas mais célebres da história da música, considerou-a impossível de ser tocada e jamais apresentou a obra em público.
Tolstói conhecia a peça de Beethoven, mas voltou a ouvi-la na primavera de 1888 numa apresentação em sua própria casa. O impacto foi tão grand que o escritor retomou uma idéia que já acalentara antes, de escrever um monólogo dramático conturbado, à maneira de Dostoiévski, para ser levado ao palco pelo ator Andreyev-Burlak, também presente naquela audição.
Trabalhando intensamente neste projeto, e somando a ele o desconforto que experimentava em seu próprio casamento, a leitura de manuais de ginecologia e de conselhos médicos para a gravidez e a higiene feminina, bem como o relatoque ouvira certa vez das angústias de um homem ante a infidelidade de sua esposa, Tolstói condensou, no tempo de uma viagem de trem, uma narrativa de caráter alucinatório, cujos movimentos parecem dialogar com as escalas vertiginosas que piano e violino exploram na obra de Beethoven.
Ainda antes da sua publicação definitiva em 1891, cópias do manuscrito espalharam-se pela Rússia, provocando enorme escânda-lo e respostas variadas, como a de Nikolai Leskov, que escreveu “A propósito de A Sonata a Kreutzer” que se contrapõe à moral severa do autor de Guerra e Paz. Sob qualquer ângulo que seja considerada, entretanto, esta novela de Tolstói constitui uma obra-prima sobre a incompreenão mútua etre homens e mulheres, na qual o andamento inexorável da tragédia não obscurece a lucidez cristalina de sua linguagem” Boris Schnaiderman in Tolstói, A Sonata a Kreutzer.
Prévert
maio 9, 2009Em algum lugar do passado.
abril 26, 2009“Nasci e cresci num apartamento muito pequeno, ao rés-do-chão, de teto baixo e medindo uns trinta metros quadrados: meus pais dormiam num sofá-cama que, ao ser aberto à noite, ocupava praticamente todo o espaço do quartinho deles. De manhã bem cedo, enfiavam esse sofá bem enfiado dentro dele mesmo, sumiam com a roupa de cama no escuro do caixote que lhe servia de base, viravam, encaixavam, empurravam e comprimiam o colchão, e estendiam uma forração cinza-clara sobre o sofá devidamente fechado e bem prensado. Por fim, espalhavam algumas almofadinhas orientais bordadas, fazendo desaparecer da vista qualquer vestígio do sono noturno. Deste modo, o quarto de dormir servia também de escritório, de biblioteca, de sala de jantar e de sala de visitas.” Oz, Amós. De Amor e Trevas, p.7.
Boa Vista: o Recife é aqui.
abril 22, 2009O sol queima a pele dos negros e você segue intocada entre as sombras e as cinzas caminhando pelas calçadas. O Recife não está ali: ele foge em passos embriagados até o seu fim, num salto para dentro do ventre podre de uma cadela sem plumas: uma desconhecida mendiga de pernas abertas que reflete o imponente casario abandonado da Rua da Aurora.
O Recife foge num mergulho e vence a inércia histórica da Faculdade de Direito: o mausoléu de Tobias. Berço de toda iniqüidade pernambucana. E, aos poucos o prédio desmorona. Você assiste, aplaude e segue em frente. Persegue o destino que a cidade amarga.
O suor escorre pelas suas costas. A calçada do Edifício União cheira à gordura e urina. É meio-dia. Em cada esquina o que é comida se mistura aos vapores do esgoto e às merdas dos pombos. Que venha a chuva! E o homem já não sabe o que come. Confunde os sentidos e se arvora em deter-se na barafunda do ruído de um auto-falante: é hoje!
É hoje! Desce uma cerveja. O velho tabelião cheira o pescoço da mulata e bebe do seu suor salobro. Aponta o pênis para o Atlântico e transporta a sua impotência para o mundo. Você acende um cigarro e passa: olha a faca!
A mulata grita. A multidão se afasta. Você permanece com os olhos na faca. Quer ceder ao cio do sangue. Desfigurar todos os rostos. Cortar todas as vergonhas e encerrar qualquer virtude a sete palmos de terra.
Alguém bate a foto do corpo e atravessa correndo o rio para a redação de um jornal: aqui! Agora, você já está longe e diz que essa história não faz sentido. Para onde foi o Recife? Garçom, desce outra! Ele está no Moscouzinho de olhos vidrados nas poesias de parede. O Recife é saudosista e, no entanto, vai à Igreja comungar com os próprios pecados. O Recife se ausenta da vida. E, para a Boa Vista a cidade já não se anuncia.
E, você? Você, embora despida, permanece estrangeira.
Era uma vez: um parágrafo.
junho 23, 2008Era uma vez alguém que não é mais, num lugar que não existe, onde as sombras não pesam e a memória é pouca. Era uma vez uma história que não adianta ser contada, porque toda história não faz sentido para quem escuta e perde sempre o sabor para quem conta. Era uma vez, não mais que uma vez, porque sempre tudo se resume a uma única vez ao nascer, ao espanto e à amnésia; uma vida que não se deixava imitar, e se esvaziava, não se continha e partia para nunca mais num sorriso.
Poema.
junho 8, 2008Juliana Albuquerque, 2005.
Pinga mais uma gota
No copo.
Escorre, lentamente o sangue:
Estamos todos mortos.
E não existe tempo suficiente,
Nada mais transcende.
É o absurdo,
São os verbos,
Os corpos.
Outro instante das nossas vidas,
A música cala,
E muda
Pinga.
Simone de Beauvoir.
março 27, 2008Quote!
março 27, 2008“(…) É possível que, a despeito de invenções e progressos, a despeito da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado à superficie da vida? É possível que se tenha recoberto mesmo esta superfície – que no fim e ao cabo seria ainda alguma coisa – com uma substância incrivelmente enfadonha, que a torna parecida com móveis de salão durante férias de verão?” Rilke, Os Cadernos de Malte L. Brigge.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.