Ser palestino não é fácil.

março 31, 2011

O vídeo “ser palestino não é fácil”, produzido pelo site Israel na Web merece ser questionado em seu objetivo de prestar apoio ao povo de Israel. Ora, um vídeo que aglomera e divulga dados indiscriminadamente, descontextualizando os resultados de uma pesquisa;  esvazia de qualquer sentido a autoridade das suas próprias fontes de informação.

Esse tipo de apoio Israel dispensa. Porque Israel não se faz presente no delírio salvacionista da Diáspora. Israel é um país que vive : ora pulsa virtudes, ora  luta contra os próprios defeitos. E, se para os vivos, o apoio é aquilo que funda, empresta base e protege; espera-se que o apoio revele qualquer verdade.

O contrário do apoio é a propaganda.

A propaganda brinca com uma ilusão de verdade.  Ela mente por omissão. O objetivo principal da propaganda é a conquista. O objetivo máximo da verdade é a liberdade.

Ser palestino não é fácil.

Também não é fácil ser judeu. Mas, neste mesmo espaço e nesta mesma angústia estão inseridas tantas minorias quantos homens existem: negros, homossexuais, mulheres, índios, filósofos ou escafandristas. A questão não está na dificuldade em ser ou isto ou aquilo.  A questão é ser e para ela ainda não foi encontrada qualquer resposta.


Os problemas da Academia em Israel.

julho 3, 2010

Apenas para complementar a discussão iniciada no post sobre a liberdade acadêmica em Israel. Acredito que o artigo abaixo seja bastante importante para compreender a atual e preocupante situação da academia israelense face ao caos político do Oriente Médio.

Resta a pergunta: o que fazer diante da crise retratada por Moshe Shoked?

Artigo extraido do HAARETZ de quarta-feira, 30 de junho de 2010.

‘Why Israeli Academia will be boycotted?’

By Moshe Shoked,

Professor Emeritus of Anthropology at Tel Aviv University.

Education Minister Sa’ar’s recent initiatives are a sign of the Israeli government’s increasing self-seclusion inside a bunker of delusions, as it distances itself from considerations guided by historical, political and social wisdom. His recent statements befit benighted regimes that have lost connection to the world, like Iran and other totalitarian states.

In the past two years I have been invited to take part in many conferences hosted by the American Anthropological Association. The topic of discussion at these forums has been the Israeli-Palestinian conflict. I agreed to take on a thankless task not as a spokesman for Israel’s education ministers or as a mouthpiece of the right or left. I appeared before an academic audience not noted for its sympathetic views on Israeli policy. This group is more inclined to support the Palestinians, albeit with the belief that neither side holds a monopoly on truth and justice.

I tried to place this awful conflict in the context of two truths, with two claims that contradict each other in terms of historical facts and painful memories, between two national movements that have lost all sense of proportion while striving for a settlement that does not provide either side with complete justice.

Alas, I have no plans to accept similar invitations in the future. In the past year, I have lost the conviction that I can truthfully speak for the current Israeli government’s suicidal behavior. The recent statements by Education Minister Gideon Sa’ar, who vowed to deal with university lecturers and professors who condemn Israel and support a boycott of Israeli universities, reflect the deep abyss the current government has led us down.

I tend to believe that it is only a matter of time before this country’s academic institutions are boycotted, regardless of the wishes of the education minister and other champions of Israeli patriotism. They will be boycotted not because of the handful of Israeli professors who have unabashedly supported such a step, but because Israel is under a global microscope that perhaps unfairly discriminates against it compared with other countries that act unjustly, even violently, toward their minorities and neighbors.

For better or worse, Israel does not enjoy the same luxury as countries like Russia and China, which do not rely on the support of Europe and the United States. Indeed, a look through this microscope reveals the foolishness of Israel’s weak-kneed leadership.

The education minister’s remarks are a sign of the Israeli government’s increasing self-seclusion inside a bunker of delusions, as it distances itself from considerations guided by historical, political and social wisdom. His statements befit benighted regimes that have lost connection to the world, like Iran and other totalitarian states. Israeli academia is losing its international standing on its own account. The brightest students, the hopes of a young generation in academia, prefer to stay abroad.

As early as the 1980s, when I researched yordim – Israeli emigrants – in the United States, I concluded that the overwhelming majority of them will not return. The book in which I included my findings was not translated into Hebrew because at the time it contradicted the dominant ideology. Sa’ar and the rest of this bizarre government of ours would prefer to hunker down and cling to the belief that the entire world is against us and we are in the right.

We have become numb to these eye-popping facts: Operation Cast Lead did not bring back Gilad Shalit, nor did it topple the Hamas government. Instead, it sowed destruction in Gaza and undercut our global standing. Our pathetic cries against the Goldstone report did not help, either. The takeover of the pathetic flotilla once again lined up the world against us. Ultimately we opened the Gaza border crossings.

More than anything, Sa’ar’s recent initiatives will help worsen the brain drain and the university boycott that awaits us. The despair that a vital sector of Israeli society, including academia, finds itself in needs to get the education minister to consider a renewed way of thinking that does not rely on a mob like that represented by right-wing Zionist movement Im Tirtzu. This brings to mind the moving call by late Labor MK Yizhak Ben-Aharon, who urged for “courage to make gains before calamity strikes.” There is no need to silence “treacherous” professors, for the calamity has already struck.


O Dilema do Prisioneiro.

junho 8, 2010

O dilema do prisioneiro (DP) dito clássico funciona da seguinte forma:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?

O fato é que pode haver dois vencedores no jogo, sendo esta última solução a melhor para ambos, quando analisada em conjunto. Entretanto, os jogadores confrontam-se com alguns problemas: Confiam no cúmplice e permanecem negando o crime, mesmo correndo o risco de serem colocados numa situação ainda pior, ou confessam e esperam ser libertados, apesar de que, se ele fizer o mesmo, ambos ficarão numa situação pior do que se permanecessem calados?

Um experimento baseado no simples dilema encontrou que cerca de 40% de participantes cooperaram (i.e., ficaram em silêncio).

Em abstracto, não importa os valores das penas, mas o cálculo das vantagens de uma decisão cujas conseqüências estão atreladas às decisões de outros agentes, onde a confiança e traição fazem parte da estratégia em jogo.

Casos como este são recorrentes na economia, na biologia e na estratégia. O estudo das táticas mais vantajosas num cenário onde esse dilema se repita é um dos temas da teoria dos jogos. Fonte: Wikipédia.

Faz dois dias encontrei um quadrinho bastante interessante que trata da relação do Dilema do Prisioneiro com os problemas Morais.

Isso aconteceu durante a ressaca do noticiário sobre o problema da Flotilla. E, me fez pensar um pouco sobre que outras possibilidades de ação poderiam ter existido tanto para os manifestantes quanto para a Marinha Israelense, na busca de um resultado vantajoso para ambos.

Como o problema a me rendeu uma boa dose diversão e reflexão desinteressada, prometo escrever qualquer coisa sobre o assunto daqui para o final do mês. No momento, deixo vocês com o quadrinho explicativo do dilema para que se possa iniciar uma discussão.

Fonte: Saturday Morning Breakfast Cereal



Hannah Arendt: a stranger from abroad.

maio 17, 2010

Em Israel, as livrarias são pequenas e, nem sempre, possuem uma grande variedade de títulos. O comum por aqui é sempre encontrar livros sobre a situação política do país, sobre a história e fundação do Estado de Israel, algumas leituras sobre pensadores judeus e, evidentemente, livros de religião.

Para quem gosta de livros e pretende visitar o país sugiro que esqueça as grandes redes de livrarias e que coloque no roteiro de viagem as bibliotecas universitárias e os sebos.

A única exceção entre as livrarias israelenses é  a Librairie du Foyer – a livraria francesa que fica no coração de Tel Aviv.  Um lugar acolhedor e repleto de bons títulos de literatura e, principalmente, de filosofia.

De qualquer maneira o impossível sempre acontece e muitas vezes a gente acaba encontrando um livro excepcional entre as porcarias que se vendem nas livrarias comuns.

Foi o que aconteceu comigo ontem quando entrei na papelaria da Universidade. Fui lá comprar uns marca-textos e dei de cara com um livro sobre Hannah Arendt e Martin Heidegger. Não tive dúvidas: comprei, levei para casa e comecei a ler imediatamente.

"I have been anxious the last few days, suddenly overcome by an almost bafflingly urgent fear...I love you as I did on the first day - you know that, and I have always known it...The path you showed me is longer and more difficult than I thought. It requires a long life in its entirety...I would lose my right to live if I lost my love for you, but I would lose this love and its reality if I shirked the responsability (to be constant) it forces on me.”

A stranger from abroad é um bom livro e busca uma aproximação objetiva sobre o relacionamento entre os dois filósofos. O que inclui, claro, a questão do envolvimento de Heidegger com o Nazismo e a ulterior reaproximação de Arendt com o seu antigo professor e amante após a Segunda Guerra Mundial.

O próprio subtítulo do livro indica a direção dos acontecimentos: Hannah Arendt, Martin Heidegger, Friendship and Forgiveness. O que empresta a figura de Arendt uma tremenda compreensão do mundo e uma apaixonante capacidade de compreender e reconhecer o outro através do seu próprio desvelamento.

O livro esclarece e desmente uma série de estórias como a referente ao provável ressentimento de Arendt em relação a sua origem judaica. Hipótese que foi explorada por inúmeros críticos do seu pensamento – principalmente os críticos do seu conceito de banalidade do mal.

A Stranger from Abroad é realmente uma leitura recomendada para qualquer interessado na vida e na obra de Hannah Arendt.


Vie Héroïque.

janeiro 25, 2010

Até o mês de abril o filme deverá estrear nas principais capitais européias. Procurei tomar conhecimento da data de estréia israelense: nenhum sinal. Segundo o IMDB até junho deste ano Vie Héroïque não está previsto para entrar nas salas de projeção do país.

Nenhum sinal.  Faz um ano escrevi um post onde relatei a necessidade de se rever a figura de Serge Gainsbourg como artista engajado com a causa judaica. E, no entanto, a causa judaica parece tê-lo esquecido. Quem lembra que ele sobreviveu a ocupação da França; ou da música que ele compôs para a Guerra dos Seis dias? Ninguém.

Aqui Serge Gainsbourg é apenas um nome e nada mais.


Tantas palavras.

agosto 7, 2009

Tel Aviv é  uma cidade que precisa ser amada. Para tanto, ela se debruça sobre o Mediterrâneo à procura do reconhecimento ocidental. Mas, entre os seus boulevards de atmosfera européia e as suas longas avenidas repletas de espigões à moda norte-americana se esconde uma cidade cuja timidez calcada numa identidade rústica e andarilha impede o desenvolvimento de uma verdadeira capital do oriente.

Capital que se esconde em escombros soterrados por um século de concreto cujo amálgama se traduz num passado errante de suor e de lágrimas.  Quais seriam os segredos e os verdadeiros dramas do mundo que se oculta sob as pedras do asfalto e os alicerces dos shopping centers?

Tel Aviv é  uma cidade fantástica tal o Castelo de Kafka. Talvez eu ainda não a tenha compreendido: talvez! Mas, sei o que sinto e, desavisada, busco romper a superfície. Quero quebrar o chão que sustenta as minhas passadas.  Pois, este chão, ora já se viu, não se quer deixar pisar: não se quer fazer sentir.

Onde está  Tel Aviv? Procuro esquinas: não as encontro. Procuro pessoas: não as percebo. Vejo, enfim, cachorros. Todos eles muito gordos a marcha rumo ao progresso. Mas, não é isso o que eu quero.

Sinal fechado. Os ônibus passam. Os telefones apitam. Enquanto isso eu permaneço no silêncio de D’us. E, lá onde a minha vista se perde as adolescentes plantam os seios verdes nos rostos lisos dos namorados. Preciso de putas! Não quero crianças.

Preciso de vida! Ânima! Drama! Corpos maduros que se abram ao prazer e se deixem consumir pelo sol e pelo trabalho incessante de uma vida cujo o único sentido é se deixar viver. Preciso das mãos que sufocam o gozo preso na garganta para desvirginar o chão. Através delas irei destruir o progresso, desconstruir o Castelo e encontrar a morada no útero da primavera. Pois, não existe a necessidade do amor. Existe apenas a vida.


Ladino.

maio 18, 2009

 

Axérico de quinze años
Su ermozura es una.

Ya así empezó azer el amor
Como una criatura.

Siete ciudades yo pasí
De París asta Londra

Y como tí, yo no topí
Aunque sos morena.

A morena, morena de mi corazón
Con un beso y un abrazo
Dámelo tu con amor
Sabrás mi morena
Que por tí me muero yo.


Em algum lugar do passado.

abril 26, 2009

“Nasci e cresci num apartamento muito pequeno, ao rés-do-chão, de teto baixo e medindo uns trinta metros quadrados: meus pais dormiam num sofá-cama que, ao ser aberto à noite, ocupava praticamente todo o espaço do quartinho deles. De manhã bem cedo, enfiavam esse sofá bem enfiado dentro dele mesmo, sumiam com a roupa de cama no escuro do caixote que lhe servia de base, viravam, encaixavam, empurravam e comprimiam o colchão, e estendiam uma forração cinza-clara sobre o sofá devidamente fechado e bem prensado. Por fim, espalhavam algumas almofadinhas orientais bordadas, fazendo desaparecer da vista qualquer vestígio do sono noturno. Deste modo, o quarto de dormir servia também de escritório, de biblioteca, de sala de jantar e de sala de visitas.” Oz, Amós.  De Amor e Trevas, p.7.


Yom HaShoah

abril 22, 2009

21 de abril: Dia da Inquisição

Pedro de Albuquerque // Escritor 

 

pedrodealbuquerque@gmail.com
http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/04/21/opiniao.asp


Hoje, não é apenas data nacional de Israel. Mas, uma vitória das federações israelitas dispersas por todo o Ocidente. Também uma vitória de todas as entidades democráticas de luta das minorias por inserção e igualdade social contra a opressão dominante e os regimes totalitários. O que faz discernir que qualquer forma de dominação social, seja de direita ou de esquerda, laica, ateia, teocrática ou de economia planificada, é sempre crime hediondo contra a humanidade por coibir a livre consciência. É preciso, pois, manter viva memória dos horrores do Nazismo. Também, do absolutismo sanguinário de Stalin com os seus sessenta milhões de assassinados. Quase dez vezes mais do que Hitler. Dentre os quais milhões de camponeses indefesos a quem os líderes da Revolução Bolchevista juraram defender e promover.

Bem, hoje não é o Dia da Inquisição. Sim do Holocausto: Yom Ha-Shoah, em que se celebra a heroica insurreição do Gueto de Varsóvia em 19 de abril de 1943 contra as forças do III Reich. Dia do resgate da dignidade do povo judeu. Dia de irrestrita e incondicional solidariedade de Israel e a Diáspora. Dia de honrar José Al Buquer: líder da resistência judia na Argélia e coordenador do desembarque das “Tropas Aliadas” de libertação do Norte da África. Ler Howard Sachar em seu: “Farewell España: A Sephardi Remembrance”.

Mas, deveria mesmo ser o Dia da Inquisição em fato e razão do Holocausto ter sido o “grand finale” da satânica Ópera da Inquisição. Um processo instaurado pela Igreja de Roma, a perdurar por setecentos anos, para o aniquilamento da identidade de um povo pela supressão da sua memória. Contando, o terror religioso, inúmeras vítimas emparedadas vivas no Limoeiro (Palácio da Inquisição, hoje, desrespeitosamente, o mesmo prédio do Teatro Nacional de Lisboa ) ou mortas calcinadas em fogueiras no seu pátio externo: atual Praça Dom Pedro I. Isto em sádicos festivais de toda farra e pompa: os Autos de Fé. Com bispos e cardeais ostentando os seus ricos paramentos custeados com os haveres usurpados dos condenados, cujos filhos eram remetidos à Casa dos Órfãos. De lá, as “fêmeas” vendidas para as colônias onde faltavam mulheres brancas e os “machos” mandados como escravos para a Ilha da Madeira. Ou vendidos, em sua maioria, aos potentados do Império Otomano para serem castrados e lá servirem de eunucos ou de amantes passivos. Isto com a receita das suas vendas revertida em favor das ordens religiosas Franciscana e Dominicana: cuja indumentária negra inspirou o figurino das “SS” dos campos alemães de extermínio.

Também, dia de se refletir sobre a pequena Anne Frank, condenada pela covardia. A covardia de todos nós quando silenciamos ante as forças de ideologização a serviço do totalitarismo. Qualquer totalitarismo. Contemporaneamente o do Hamas: flagelo do Povo Palestino em Gaza. Quando da minha última estada em Amsterdã, trinta breves dias, um lapso de eternidade, estive no refúgio de Anne Frank no sótão de um antigo sobrado. Dos muitos sobrados daquela cidade que somente respira o amor, a liberdade, a tolerância, a fraternidade e a igualdade. Isto sem o olor de Paris: de sangue derramado. É que toda revolução é assassina. Amsterdã, a cidade da esperança dos nossos antepassados, sobre a qual a Inquisição, por derradeiro, deitou a sua tenebrosa sombra na versão da cumplicidade tácita da Concordata do Papa Pio XII: o Holocausto.

 

 

Dia de se refletir sobre os milhões de vítimas da Inquisição. Vítimas até hoje. Todos nós cristãos-novos de batismo forçado: “judeus-velhos” no dizer do Padre Antônio Vieira. Todos nós brasileiros de mais ou menos acentuada ascendência ibérica e, ou, de mais ou menos acentuada ascendência europeia oriental. Ou dessas duas etnias com os tupynabah e com outros mais das muitas tribos de África miscigenadas: brasilidade!


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